Novo logo do Instagram divide criativos e expõe um debate maior sobre design e branding

O Instagram mudou bastante desde os primeiros anos de existência. O que começou como uma plataforma relativamente pequena, muito associada à fotografia e a comunidades de designers, desenvolvedores e criadores, rapidamente se transformou em uma das maiores redes sociais do mundo.

Essa evolução nunca aconteceu de maneira totalmente linear. Recursos, formatos, públicos e prioridades foram mudando conforme a plataforma cresceu. Agora, uma alteração aparentemente simples voltou a mostrar como qualquer mudança envolvendo uma marca desse tamanho pode provocar discussões muito maiores do que o próprio elemento visual que foi atualizado.

Em agosto de 2026, o Instagram apresentou um novo wordmark, substituindo a versão utilizada havia cerca de dez anos. A mudança foi desenvolvida como parte de uma atualização mais ampla da identidade visual da plataforma, buscando modernizar a marca sem abandonar completamente características reconhecidas pelo público.

O resultado, porém, dividiu profissionais da área criativa.

O que incomoda no novo logo do Instagram?

O novo wordmark combina características de escrita manual com formas mais geométricas. É uma escolha diferente da estética extremamente limpa e baseada em fontes sans-serif que dominou boa parte do design das empresas de tecnologia durante os últimos anos.

Por um lado, essa mudança pode ser vista como uma tentativa de escapar da homogeneização visual que tomou conta do setor. Muitas marcas digitais acabaram adotando identidades cada vez mais parecidas, com tipografias simples, layouts minimalistas e poucos elementos realmente distintivos.

O Instagram seguiu outra direção.

O problema é que ser diferente, por si só, não significa necessariamente que uma solução funcione.

Entre os pontos que mais chamaram atenção está a construção da letra “r”. Dependendo da leitura, o caractere pode parecer um “z”, fazendo com que algumas pessoas enxerguem algo próximo de “Instagzam” no lugar de Instagram. A interpretação virou rapidamente assunto nas redes sociais e passou a aparecer em críticas e memes sobre o redesign.

A designer de marcas Sophie O’Connor está entre os profissionais que consideraram problemática a combinação das duas linguagens tipográficas. Para ela, há uma sensação de conflito entre os estilos utilizados na composição.

Anna van der Feltz também destacou especificamente a letra “r”. Apesar de avaliar positivamente outros aspectos da tipografia, ela apontou que o caractere interfere na leitura natural do nome.

Larry Chikara trouxe uma crítica semelhante. Para o designer de identidade visual, a mistura entre sans-serif e elementos cursivos produz um resultado estranho. Em sua visão, uma ruptura mais clara com o passado poderia ter funcionado melhor do que manter partes da linguagem manuscrita anterior.

A discussão, portanto, não está apenas relacionada ao gosto pessoal. Ela também envolve uma das questões mais básicas do design: até que ponto uma identidade pode sacrificar legibilidade em nome de personalidade?

A discussão sobre acessibilidade

A designer Berenice Howard-Smith chamou atenção justamente para esse ponto. Mesmo sem considerar o novo desenho necessariamente ruim, ela questionou possíveis impactos relacionados à acessibilidade.

Para marcas digitais utilizadas por públicos extremamente amplos, legibilidade não é apenas uma escolha estética. Dependendo da aplicação, ela também influencia a facilidade com que diferentes pessoas conseguem interpretar uma informação.

Mas nem todos concordam que esse raciocínio possa ser aplicado da mesma maneira a um logo.

Graham Jones, por exemplo, argumenta que praticamente ninguém verá a palavra completa e realmente imaginará que o nome da plataforma passou a ser “Instagzam”. O reconhecimento da marca é tão grande que o cérebro identifica o conjunto antes de analisar individualmente cada letra.

Esse argumento levanta uma questão interessante.

Um wordmark precisa necessariamente obedecer às mesmas regras de leitura de um texto comum?

Logos funcionam dentro de um contexto diferente. Diversas marcas sequer utilizam palavras em suas identidades principais e são reconhecidas apenas por símbolos. Em outros casos, letras são alteradas, simplificadas ou transformadas justamente para criar características visuais próprias.

O tamanho do Instagram torna essa discussão ainda mais complexa. Uma empresa com enorme brand equity pode experimentar soluções que provavelmente seriam consideradas problemáticas em uma marca desconhecida.

Isso cria outro questionamento: marcas extremamente reconhecidas podem quebrar determinadas regras de design justamente porque já não dependem delas para serem identificadas?

Não existe uma resposta simples.

O logo não foi pensado para funcionar sozinho

Parte das críticas também pode estar relacionada à maneira como a atualização foi observada.

Quando um novo logo aparece nas redes sociais, é comum que ele seja apresentado isoladamente, muitas vezes ao lado da versão anterior. A análise acaba se concentrando naquele único elemento.

No caso do Instagram, entretanto, o wordmark faz parte de uma atualização muito maior.

Além do logo, a identidade recebeu mudanças em tipografia, motion, composição, layouts e na utilização dos elementos visuais que formam o ecossistema da marca.

A atualização também introduziu novas famílias tipográficas. A Instagram Sans foi revisada, enquanto Instagram Pen e Instagram Mono passaram a ampliar as possibilidades da linguagem visual da plataforma. O tradicional gradiente continua presente, mas passou a ser utilizado de maneira mais controlada.

Também existe uma intenção de oferecer mais espaço ao conteúdo produzido pelos usuários. Em vez de competir visualmente com fotografias, vídeos e outras criações publicadas na plataforma, o sistema busca funcionar como uma estrutura que permite que esse conteúdo tenha maior protagonismo.

Dentro desse cenário, algumas decisões que parecem estranhas quando o logo é observado sozinho começam a ganhar outra interpretação.

Jaxanna M., do Studio Jax, está entre os profissionais que enxergaram dessa maneira. Para ela, a construção da letra “r” e o uso do espaço negativo entre os caracteres funcionam melhor quando o wordmark é analisado dentro de todo o sistema visual.

A combinação entre elementos manuscritos e formas mais geométricas deixa de parecer apenas uma escolha tipográfica isolada e passa a representar uma tentativa de unir expressão pessoal e estrutura.

Essa é uma diferença importante.

O logo não precisa necessariamente carregar sozinho toda a identidade de uma marca. Em sistemas contemporâneos de branding, ele é apenas uma das várias peças utilizadas para construir reconhecimento.

Por que parte dos designers aprovou a mudança

Enquanto algumas pessoas enxergaram problemas de legibilidade e coerência, outras consideraram o resultado uma evolução bem planejada.

O diretor de arte Alastair McCarley avaliou positivamente a maneira como o novo desenho mantém referências à história visual do Instagram enquanto cria uma relação mais próxima com outros elementos conhecidos da marca, incluindo o ícone com gradiente.

Michael Guerin também interpreta a atualização como uma evolução, e não como uma tentativa de corrigir algo necessariamente errado na identidade anterior.

Esse aspecto é particularmente importante quando se trata de marcas com grande reconhecimento.

Redesigns não precisam acontecer apenas porque um logo antigo deixou de funcionar. Em determinados casos, o objetivo pode ser preparar a identidade para novas necessidades, produtos, formatos e contextos culturais.

Foi justamente um dos desafios enfrentados na atualização do Instagram.

Ao longo de aproximadamente 15 anos, a plataforma deixou de ser essencialmente um aplicativo para compartilhamento de fotografias e passou a abrigar creators, comunidades, empresas, vídeos, mensagens, ferramentas de edição e diferentes tipos de experiências digitais.

O wordmark, porém, permaneceu relativamente estável durante boa parte desse período. A atualização procura aproximá-lo do ecossistema atual da plataforma e permitir sua utilização em uma quantidade maior de contextos.

Ao mesmo tempo, abandonar completamente a escrita com personalidade característica do Instagram teria seus próprios riscos.

Uma solução puramente sans-serif poderia facilmente aproximar a plataforma justamente do tipo de identidade genérica que muitas marcas de tecnologia adotaram nos últimos anos.

Por isso, manter algum aspecto manuscrito também pode ser interpretado como uma decisão deliberada para preservar personalidade.

O valor de marca permite quebrar as regras?

No fim das contas, a discussão em torno de “Instagzam” parece representar apenas a parte mais visível de um debate muito maior.

O verdadeiro tema envolve a relação entre reconhecimento, legibilidade, personalidade e contexto.

Existe ainda uma questão sobre valor de marca. Quanto mais reconhecida uma identidade se torna, maior pode ser a liberdade para experimentar.

Uma marca desconhecida provavelmente teria dificuldades se parte do público não conseguisse interpretar corretamente uma letra de seu nome. O Instagram, por outro lado, possui um nível de reconhecimento que praticamente elimina a possibilidade de confusão sobre qual empresa está sendo apresentada.

Isso significa que as regras deveriam ser diferentes?

Ao mesmo tempo, avaliar o wordmark apenas como uma imagem isolada talvez não seja suficiente. Branding contemporâneo envolve sistemas muito mais amplos, especialmente em empresas digitais.

Tipografia, movimento, interfaces, fotografia, layouts, ícones, cores e comportamento da marca também participam da construção da identidade.

É possível, portanto, considerar uma decisão tipográfica estranha isoladamente e, ao mesmo tempo, reconhecer que ela funciona dentro de um sistema maior.

A divisão talvez seja justamente o ponto mais interessante

Não existe consenso entre designers sobre o novo logo do Instagram.

Para alguns, a construção compromete a legibilidade e cria um problema que poderia ter sido evitado. Para outros, a identidade conseguiu preservar elementos reconhecíveis enquanto atualiza a marca para uma nova fase.

E talvez essa divisão seja mais relevante do que descobrir qual grupo está certo.

Decisões de design quase nunca são determinadas por uma única regra. Legibilidade importa. Personalidade também. Acessibilidade importa. Brand equity também. O contexto em que o elemento será utilizado pode transformar completamente a percepção de uma solução visual.

O desafio está justamente em decidir quanto peso cada um desses fatores deve receber.

O novo wordmark do Instagram não provocou discussão apenas porque uma letra parece estranha para algumas pessoas. Ele colocou em evidência uma questão recorrente no branding: até onde uma marca pode evoluir sem perder aquilo que tornou sua identidade reconhecível?

E, considerando o nível de discordância entre os próprios profissionais da área, a resposta continua longe de ser definitiva.