Como o branding retrô está trazendo mais calor e diversão aos bares e restaurantes de São Paulo

Referências vernaculares, técnicas de impressão analógica, ilustrações e uma boa dose de nostalgia estão transformando a identidade visual de bares e restaurantes brasileiros, especialmente em São Paulo.

São Paulo é uma cidade em constante transformação. Novos bares, cafés e restaurantes surgem todos os dias, em parte impulsionados pela intensa verticalização provocada pelo boom imobiliário que vem remodelando diversos bairros. Esse cenário cria um terreno fértil para designers, embora as condições de trabalho estejam longe de ser ideais: são comuns projetos com orçamentos reduzidos, muitas vezes realizados entre amigos e nem sempre implementados exatamente como foram concebidos.

As identidades de bares, porém, costumam oferecer maior liberdade. Menos presas às convenções tradicionais do branding, elas frequentemente procuram transmitir espontaneidade e improvisação, abrindo mais espaço para experimentação.

Durante muito tempo, identidades minimalistas e consideradas “elegantes” dominaram a paisagem visual paulistana. Eram comuns letras limpas e geométricas, padrões construídos a partir de fragmentos de caracteres, pontos, arcos, hachuras e outros recursos semelhantes. A fórmula parecia relativamente previsível: simplificar, geometrizar, fragmentar e, pronto, surgia uma nova identidade.

Mais recentemente, porém, essa busca constante por sofisticação parece estar cedendo espaço para identidades mais divertidas, acolhedoras, coloridas e ilustradas, que valorizam técnicas artesanais e o apelo emocional. E essa mudança não se limita mais ao logo ou à fachada dos estabelecimentos.

Um projeto que chama atenção nesse movimento é a identidade criada em 2020 para o Bar Exquisito, cujo cardápio mistura referências culinárias de diferentes partes da América Latina. À primeira vista, a abordagem pode não parecer particularmente inesperada, já que percorre um caminho bastante conhecido por bares de temática latino-americana. O diferencial está justamente em conseguir trabalhar com referências familiares e, ainda assim, produzir algo que pareça novo.

O projeto nasceu de uma pesquisa sobre a cultura vernacular latino-americana. Entre as referências estavam embalagens populares e de impressão barata encontradas em comidas de rua, caixas de frutas impressas em flexografia, com grandes blocos simplificados de cor, sobreposições e pequenos desalinhamentos de impressão, além da tradição das placas e letras pintadas à mão.

A identidade também incorporou uma tipografia exclusiva inspirada nos letreiros vernaculares encontrados em mercados e pequenos estabelecimentos comerciais, além de um conjunto variado de ilustrações baseado em elementos reconhecíveis e bem-humorados da cultura latino-americana.

Outro estúdio que exerce um papel importante na pesquisa e valorização desse tipo de imaginário gráfico tradicional é o Arado. Criado em 2018 por dois designers mineiros, o estúdio se dedica à pesquisa e promoção do imaginário rural brasileiro, desenvolvendo projetos e produtos que revisitam esse universo visual, ainda encontrado fora dos grandes centros urbanos, embora cada vez com menos frequência.

Para o cenário de bares de São Paulo, o estúdio desenvolveu, em 2022, a identidade da Cervejaria Duas Irmãs. O projeto apresenta um retrato das duas irmãs dentro de uma moldura oval central, acompanhado por lettering desenhado à mão que assume deliberadamente suas distorções e irregularidades.

A composição faz uma referência bastante direta aos materiais gráficos comerciais do início do século 20, enquanto a estilização das ilustrações também remete ao universo dos personagens de histórias em quadrinhos.

O bar não conta apenas com uma fachada pintada à mão. Todo o cardápio também foi pintado diretamente na parede. A atmosfera retrô da identidade é reforçada por expressões típicas da linguagem comercial de outras épocas, como “Desde 2022”, a presença dos nomes das proprietárias e o tradicional “agradecemos a preferência”, tão comum no comércio brasileiro.

Seguindo uma lógica semelhante, a identidade desenvolvida em 2024 para o Bar Ovo busca referências diretamente em antigos rótulos litográficos, especialmente rótulos de cachaça, além de caixas de fósforos, embalagens e peças publicitárias da primeira metade do século 20, marcadas pelo uso abundante de molduras, sombras e degradês formados por linhas.

Uma das referências presentes no briefing original era uma coleção de galinhas que levou os proprietários a escolher o nome do estabelecimento. Havia também a preocupação de transmitir a atmosfera de um boteco brasileiro, aquele bar de bairro despretensioso e popular — hipsterismo de manual.

Assim como acontece no Exquisito, a identidade vai muito além do logo. Um conjunto de ilustrações envolvendo ovos, galinhas e elementos do imaginário rural brasileiro é combinado a uma mistura tipográfica cuidadosamente construída para reproduzir a estética vernacular.

O nome do bar aparece em diferentes versões bem-humoradas, sempre acompanhado por ilustrações e molduras. O projeto ainda sugere o uso de fotografia analógica, com flash e uma sensação proposital de improvisação.

A identidade do Suei, bar e pista de dança localizado no movimentado bairro da Barra Funda, parte de outra referência histórica. Nesse caso, contornos pesados e irregulares, antropomorfismo, elementos desproporcionais, tipografias que lembram pinceladas, preenchimentos chapados em cores levemente desbotadas e áreas pretas irregulares que simulam impressões de Xerox recuperam a deliciosa ingenuidade visual da publicidade dos anos 1970.

A ideia de calor implícita no próprio nome do bar — Suei — serviu como ponto de partida para o desenvolvimento de um estilo descrito como “derretido”.

Curiosamente, o projeto também desafia algumas das regras mais convencionais do branding ao apresentar três maneiras completamente diferentes de escrever o nome do estabelecimento. A escolha sacrifica parte do reconhecimento imediato da marca em favor de uma identidade mais divertida e imprevisível.

Essa onda retrô está longe de se restringir a São Paulo. No Rio de Janeiro, outro projeto alinhado à tendência das identidades ilustradas e nostálgicas é o trabalho desenvolvido em 2024 para o Salva Bar.

O restaurante trabalha com a culinária baiana, combinando especialidades do sertão, do mar e dos manguezais. A identidade reúne cores intensas, texturas e frases que procuram traduzir diferentes aspectos da Bahia, ao mesmo tempo em que parte da relação afetiva do chef com seu estado de origem.

O projeto utiliza a textura e a paleta de cores características da impressão Risograph. Embora esse recurso já tenha sido bastante explorado como uma espécie de atalho visual para comunicar uma estética analógica e retrô, aqui ele é empregado justamente para evitar algumas das referências mais óbvias associadas visualmente ao Nordeste brasileiro, especialmente a xilogravura.

A nostalgia aparece não apenas na textura, mas também na combinação entre lettering manual e uma série de carimbos. Ela está presente ainda nos próprios temas escolhidos para as ilustrações: a carranca, o barco a vapor que antigamente conectava cidades do Recôncavo Baiano, o Farol da Barra, uma moringa de barro e uma pequena capela. Todos aparecem representados como silhuetas de cores chapadas.

O wordmark em letras minúsculas é um dos elementos mais fortes do projeto e teve como referência uma edição de 1968 das obras completas de Jorge Amado, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira do século 20 e figura fundamental na construção do imaginário nacional sobre a Bahia.

Para preservar o caráter divertido da identidade, o nome do bar também aparece composto com a tipografia manuscrita Ywft Hllvtka, usada ainda em outros textos baseados em expressões locais. A combinação de lettering, ilustrações multicoloridas e carimbos resulta em uma série marcante de pôsteres.

Também trabalhando dentro da lógica dos pôsteres, a identidade desenvolvida para o recém-inaugurado Bar Aperitivo, em São Paulo, adota uma atmosfera retrô. Desta vez, porém, a referência vem de outro lugar: os verões italianos dos anos 1970 e seus drinks coloridos.

Como DJs tocam discos de vinil no estabelecimento, as formas circulares dos discos foram transformadas em ilustrações geométricas simplificadas que combinam cores chapadas e gradientes. No wordmark, os “O” se transformam em azeitonas, reforçando de maneira descontraída a relação da identidade com o universo do aperitivo.

Essa busca por autenticidade dentro do design gráfico levanta uma questão interessante. O resultado parece depender, por um lado, da qualidade e da profundidade da pesquisa por trás das referências utilizadas — uma pesquisa que, infelizmente, muitas vezes vem sendo reduzida às sugestões algorítmicas do Pinterest.

Por outro lado, existe um fator muito menos tangível: a capacidade de processar essas referências e transformá-las em algo original, que vá além de simplesmente citar visualmente um determinado período histórico.

Isso exige certo equilíbrio entre consistência e ousadia. E os projetos apresentados aqui ocupam diferentes posições dentro desse espectro.

Essa onda nostálgica não é exatamente nova e tampouco exclusiva de São Paulo. Muito já se discutiu sobre o hipsterismo e sua busca interminável pelo genuíno, pelo local e pelo orgânico, apenas para que esses códigos acabem rapidamente absorvidos pelo mainstream.

Mas existe uma particularidade quando isso acontece em uma cidade pouco afeita à ideia de preservação. São Paulo foi moldada não apenas pela especulação imobiliária desenfreada, mas também por uma cultura profundamente enraizada de renovação constante.

Pouquíssimos bares conseguiram atravessar décadas permanecendo praticamente inalterados — justamente aqueles que poderiam ser considerados verdadeiramente autênticos. Nesse contexto, a tentativa de reproduzir visualmente uma tradição ganha um componente inevitavelmente irônico.

Resta aos designers gráficos a tarefa nada simples de fabricar sinais de autenticidade e reconstruir simbolicamente uma memória que essa transformação permanente acaba apagando.

Por meio do design, cada novo bar precisa conquistar um caráter próprio capaz de atrair seu público e, ao mesmo tempo, recuperar um pouco da vida afetiva e da sensação de pertencimento que a cidade parece engolir conforme se transforma.

Felizmente, alguns designers estão encontrando maneiras bastante inventivas de fazer exatamente isso.