Como as formas das letras carregam cultura

A tipografia há muito tempo é tratada como um veículo para a linguagem, um sistema supostamente neutro usado para transmitir palavras. Mas essa visão sempre foi incompleta. As formas das letras não apenas carregam significado: elas também ajudam a construí-lo. Podem revelar geografia, relações de poder, migração e memória. Em uma era marcada pela padronização global, na qual sistemas tipográficos muitas vezes convergem para soluções homogêneas e funcionais, a questão deixa de ser apenas como lemos e passa a incluir quais histórias podem estar sendo apagadas nesse processo.

Between Worlds, projeto tipográfico desenvolvido pelo designer Daniel Irizarry, surge como uma reação a essa homogeneização. Criado como uma exploração bilíngue da diáspora porto-riquenha, o trabalho trata a tipografia não como uma camada meramente estética, mas como parte da infraestrutura cultural.

O projeto reúne três typefaces display, cada uma inspirada em um aspecto diferente da experiência porto-riquenha e porto-riquenha-americana. A partir delas, Irizarry constrói uma linguagem visual capaz de abrigar contradições: ilha e continente, orgulho e deslocamento, visibilidade e apagamento.

Um dos aspectos mais relevantes do projeto está justamente em sua recusa em separar forma e contexto. Nesse caso, a tipografia participa ativamente do processo de documentar uma cultura. As letras se transformam em artefatos influenciados por placas de rua, pela história militar e pela estética comercial, além de se expandirem para objetos físicos e manifestações espaciais que dialogam com as experiências que serviram de referência.

Dessa forma, Between Worlds aproxima o type design mais da antropologia do que da decoração. Ele se torna um método de preservação, interpretação e, em determinados momentos, de resistência silenciosa.

Isso levanta uma questão mais ampla para o design. À medida que sistemas visuais se tornam mais escaláveis e padronizados, qual é a responsabilidade dos type designers na preservação das particularidades culturais? E quando apenas as palavras não são suficientes, até que ponto a própria forma pode comunicar aquilo que a linguagem não consegue expressar?

O projeto explora justamente essas tensões entre arquivo pessoal e narrativa pública, prática comercial e crítica cultural, mostrando como a tipografia pode funcionar simultaneamente como memória e mensagem.

Em Between Worlds, a tipografia funciona como documentação cultural, e não apenas como recurso estético. Em que momento ficou claro que as próprias formas das letras, e não somente as palavras escritas, estavam carregando parte do peso emocional da experiência da diáspora?

O projeto começou mais como uma oportunidade de explorar alguns dos meus próprios interesses e da minha formação cultural. Inicialmente, eu estava principalmente pesquisando referências históricas e imagens de arquivo em busca de elementos tipográficos ou de design que fossem interessantes.

Também gosto muito de observar imagens históricas e perceber como as coisas mudam ao longo do tempo. À medida que me aprofundei no desenvolvimento das três typefaces, comecei a estabelecer conexões entre o tema do projeto e a minha própria história.

Borinqueneers, por exemplo, surgiu a partir de uma ou duas imagens de referência que encontrei ainda no início. Conforme meu interesse pelo projeto cresceu, comecei a pesquisar mais sobre a história daquela unidade militar.

A produção do trabalho e a pesquisa das referências passaram a alimentar uma à outra. Com o tempo, comecei a enxergar mais de mim mesmo no projeto e, ao mesmo tempo, histórias mais amplas sobre a relação entre Porto Rico e os Estados Unidos.

Não diria que o trabalho carrega todo o peso emocional da experiência da diáspora. Enxergo mais como um reflexo da minha própria identidade, com elementos e conexões que podem ser relacionados a uma narrativa mais ampla e ao contexto histórico dessa relação.

A typeface Borinqueneers ganhou uma dimensão pessoal quando você descobriu que três tios-avôs do lado materno serviram no 65º Regimento de Infantaria. Como essa descoberta alterou as decisões de design e chegou a tornar o projeto emocionalmente pesado demais?

Eu já vinha trabalhando na typeface e pesquisando a unidade militar como um tema de interesse. Antes desse projeto, a história deles não era algo que eu conhecia profundamente. Quanto mais eu pesquisava, mais percebia que aquela trajetória refletia, de certa forma, a própria relação entre os dois países e as tensões existentes nela.

Eram pessoas que serviram de maneira honrosa e representaram seu povo, mas que nem sempre receberam a dignidade e o respeito que mereciam depois de colocar suas vidas em risco.

Um dia, conversando com minha mãe por telefone sobre o projeto e sobre alguns dos livros que estava lendo, ela comentou que tínhamos familiares que haviam servido naquela unidade.

Para mim, isso não tornou o projeto pesado a ponto de querer interrompê-lo. Na verdade, aconteceu o contrário. A descoberta me ajudou a continuar e trouxe a sensação de que talvez eu estivesse seguindo pelo caminho certo.

Acredito que essa história seja importante, e meu trabalho é uma pequena maneira de trazer mais atenção para uma parte da nossa história e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de compreender melhor a minha própria.

Piragua questiona diretamente a cultura de consumo e aquilo que pode ser chamado de “sedução das vitrines”. Como lidar com a tensão entre trabalhar dentro de sistemas comerciais e, ao mesmo tempo, analisá-los criticamente? Essa contradição fortalece ou complica o trabalho?

Eu amo design gráfico e amo ser designer. Acredito que o design possui um poder real para promover mudanças relevantes e é uma ferramenta importante para transmitir mensagens de maneira clara e impactante.

Ao mesmo tempo, precisamos reconhecer nossa participação na amplificação de determinadas mensagens. Trabalho com branding há vários anos e, em diferentes momentos, também dediquei parte do meu tempo a trabalhos voluntários.

Algo que sempre me incomodou é perceber que muitas das pessoas com as mensagens mais importantes e que realizam alguns dos trabalhos mais relevantes são justamente aquelas que têm menos acesso ao design.

O design, da maneira como funciona hoje, ainda é muito seletivo e limitado. Mesmo no trabalho comercial, tento encontrar formas de ampliar aquilo que é entendido como “bom” design no dia a dia. Como fazer com que o design seja mais amplo, represente mais perspectivas e incorpore diferentes pontos de vista?

No fim das contas, design muitas vezes é uma atividade comercial e todos precisam encontrar formas de viver do próprio trabalho. Ainda assim, procuro inserir meu ponto de vista sempre que possível.

Existe também uma linha clara em relação aos tipos de projetos que estou disposto a aceitar e aqueles dos quais prefiro não participar. Para mim, isso é muito importante.

Piragua e Between Worlds, de maneira geral, tratam justamente da exploração dessas tensões e do reconhecimento de que elas existem, e não de um julgamento definitivo.

As mesmas ferramentas capazes de alimentar uma cultura de consumo prejudicial também podem ajudar pequenos negócios a sobreviver e dar voz a movimentos sociais.

Para designers que precisam viver de seu trabalho, acredito que a questão está em encontrar equilíbrio e permanecer fiel aos próprios valores.

Callejón surgiu do desejo de preservar expressões populares porto-riquenhas antes que elas desapareçam. Em uma época de rápida homogeneização cultural, o type design também pode assumir uma responsabilidade de preservação próxima da linguística ou da antropologia?

Não quero falar em nome de todos os designers sobre qual deveria ser a responsabilidade de cada um em seu trabalho. Pessoalmente, porém, tenho um carinho muito grande por algumas dessas expressões e por esse vocabulário visual popular.

Eles representam minha família e minha cultura e ocupam um lugar especial para mim.

Grande parte desse projeto e do meu trabalho pessoal nasce justamente de um interesse genuíno pelo tema e pela cultura, além da vontade de registrar alguns desses elementos para que outras pessoas também possam conhecê-los e apreciá-los.

É também uma fotografia de determinado momento que quero preservar para mim mesmo. Quase como uma foto antiga que você pode rever no futuro e usar para lembrar com carinho de determinados momentos.

Quero manter algumas dessas ideias e personalidades vivas no meu trabalho.

Hoje existem muitos designers e artistas produzindo projetos desse tipo, e admiro muito esse movimento. Quero encontrar minhas próprias maneiras de contribuir e criar trabalhos que sejam importantes para mim e que, espero, também consigam estabelecer conexões com outras pessoas.

Between Worlds é descrito como um projeto em andamento, funcionando simultaneamente como arquivo pessoal e conversa pública. Onde um projeto assim realmente termina? E como saber quando a tipografia conseguiu comunicar aquilo que apenas a linguagem não conseguiria?

Para mim, esse projeto foi um verdadeiro trabalho feito por paixão, e alguns de seus aspectos aparecem como referências ou fontes de inspiração no meu trabalho pessoal há muitos anos.

Sempre gostei de diferentes expressões e modos de falar porto-riquenhos e, durante muito tempo, criei ilustrações e outras peças visuais inspiradas nesses elementos.

Esse projeto também foi uma maneira de me obrigar a transformar as ideias em algo concreto e compartilhar o trabalho. Precisava estabelecer algum tipo de marco, publicar aquilo de alguma forma e me responsabilizar por realmente produzir o projeto.

Agora que desenvolvi essas três typefaces dentro desse universo, percebo que o resultado é, na verdade, um reflexo da minha própria identidade e de elementos aos quais provavelmente sempre vou recorrer em busca de inspiração.

Nesse sentido, meu trabalho continuará conectado a essas ideias, seja diretamente por meio desse projeto ou de maneira mais ampla, ao representar minha própria história e herança cultural.

A história porto-riquenha ainda é uma espécie de ponto cego nos Estados Unidos fora da comunidade latina. Hoje existe uma visibilidade maior do que antes, especialmente por meio de artistas como Bad Bunny, mas ainda há uma enorme quantidade de histórias e acontecimentos que podem ser apresentados e valorizados.

Esse projeto foi uma pequena tentativa de fazer isso à minha maneira.

O que considero especialmente interessante no type design é o fato de que a forma visual pode carregar significado ao lado das próprias palavras.

As formas das letras dão voz à mensagem de maneiras que a linguagem, sozinha, nem sempre consegue alcançar.

Usar o type design como uma ferramenta para documentar uma cultura, e não apenas a linguagem associada a ela, pode ser extremamente poderoso.

Além disso, permite que outras pessoas utilizem essas mesmas ferramentas para comunicar suas próprias mensagens carregando também esse contexto cultural implícito.

É uma possibilidade que pretendo continuar explorando.