Mudar a identidade visual da empresa: quando vale e quando dá errado

A lista de marcas que passaram por rebranding, apanharam dos consumidores e recuaram em poucos dias ficou grande demais para ser tratada como azar. Existe um padrão, e ele começa a aparecer bem antes da apresentação da nova logomarca.

Trocar de aparência sempre gerou barulho, isso não é novidade. O que se alterou foi a velocidade e o tamanho da resposta. Uma arte nova é publicada, a internet inteira opina em algumas horas, o assunto vira piada pronta, e o fabricante se vê decidindo em regime de urgência algo que levou dois anos para ser construído. Algumas seguram o tranco. Outras recuam, engolem o custo e voltam ao que tinham antes.

Vale entender por que isso acontece, porque o motivo quase nunca está onde as pessoas procuram. Raramente o problema é o traço em si. Costuma ser o que ele estava carregando sem ninguém ter notado.

Tudo parece igual, e isso empurra o redesign

Existe uma sensação generalizada de que o design de marca ficou parecido demais. Logotipo sem serifa, paleta de cores achatada, ilustração de traço uniforme, o mesmo repertório circulando entre categorias que não têm nada a ver uma com a outra. A queixa é antiga, mas o volume de imagem que alguém vê por dia é absurdamente maior do que já foi, e isso amplifica a sensação de mesmice.

Diante disso, quem quer se destacar tem duas saídas. Pode se manter firme no que já construiu, apostando que a consistência ao longo dos anos vale mais do que a novidade. Ou pode limpar a mesa e recomeçar, assumindo o risco de estranhamento em troca da chance de ser notado.

O segundo caminho é sedutor porque rende conversa, e conversa é confundida com sucesso. O problema é que o estranhamento costuma ser certo e o ganho é apenas provável.

Mexer no que está no armário há um século

O exemplo mais didático dessa briga é o do Lyle’s Golden Syrup, o melado dourado da britânica Tate & Lyle, que mexeu numa das embalagens mais antigas em uso no mundo, praticamente intocada por mais de um século e meio.

A ilustração original, um leão morto cercado por um enxame de abelhas, densa e cheia de detalhe, foi trocada por uma arte plana e simplificada, junto com mudanças de tipografia, de cor e de material. A reação foi violenta o suficiente para a Tate & Lyle vir a público lamentar o desconforto causado. O detalhe irônico é que a embalagem antiga continuou existindo em parte da linha, e só um formato recebeu o rótulo novo, ou seja, a revolta foi bem maior do que a alteração.

A pergunta interessante não é se a versão nova é boa. É por que alguém se importa tanto com a lata de um produto barato que está no fundo do armário.

A resposta tem menos a ver com estética e mais com estabilidade. Quase nada permanece igual por tempo suficiente para virar referência. Um rótulo que atravessou gerações, que o seu avô comprava com a mesma cara, é uma das poucas coisas que não se moveram. Quando ele se move, o consumidor não está reclamando de tipografia, está reclamando de perder mais um ponto fixo num cenário em que tudo já está mudando o tempo todo.

A nostalgia virou âncora

Essa é a leitura que explica a maioria dos episódios: o consumidor está hipersensível a qualquer rebranding porque já vive num ambiente de instabilidade permanente. Cada atualização de aplicativo troca o lugar dos botões, cada rede social altera as regras do jogo, cada serviço que ele usa parece estar sempre virando outra coisa.

Nesse cenário, o nome conhecido deixa de ser apenas um produto e passa a funcionar como referência de continuidade. Mexer nele sem preparo é ler o ambiente errado. O fabricante acha que está entregando modernidade e quem compra recebe como mais uma perda.

Isso explica também por que a reação é desproporcional à importância objetiva do produto. Quanto mais banal e mais presente no cotidiano, maior a chance de a troca doer, porque é justamente a banalidade que transformou aquele rótulo em paisagem.

A Cracker Barrel recuou em poucos dias

Outro episódio famoso é o da Cracker Barrel, rede americana de restaurantes de beira de estrada, ligada a um estilo rural e nostálgico, que apresentou um logotipo simplificado, aposentando a figura do homem encostado no barril que acompanhava a rede havia décadas.

A reação foi imediata e o assunto saiu do mundo do design, ganhando comentário político e virando pauta nacional. Em poucos dias a companhia anunciou que voltaria à versão anterior e suspenderia também a reforma das lojas que viria junto.

O que esse episódio ensina é que trocar a cara de uma rede querida é, antes de tudo, uma decisão de negócio que se expressa em design gráfico. Quando o símbolo carrega significado cultural, as pessoas se apropriam dele, e quem é dono passa a ter menos controle sobre ele do que imagina.

Quando mudar sempre é o próprio estilo

Existe o outro lado, e ele também é real. Algumas marcas se reinventam com frequência e são premiadas por isso.

O exemplo mais citado é o do Mailchimp, plataforma de e-mail marketing que adotou uma linguagem deliberadamente estranha, com ilustração surreal e cor vibrante, e transformou a inconstância criativa em traço de personalidade e de branding. Chegou a montar um estúdio interno, o Wink, para levar aquela linguagem mais longe, com liberdade para experimentar dentro de um conjunto de regras que mantinha tudo reconhecível.

Só que tem um detalhe que quase sempre é ignorado por quem tenta copiar esse caminho: a clientela do Mailchimp é formada por profissionais de marketing, publicidade e propaganda, designers e estúdios. É gente que lida com criação todo dia e que recebe experimentação como qualidade, e não como instabilidade. A licença para ser inconstante não veio do talento do time, veio da tolerância da plateia.

Aplicar a mesma fórmula num negócio que fala com quem não tem nenhum interesse por design é a receita do desastre, porque a mesma ousadia que ali soa como personalidade, aqui soa como falta de rumo.

O episódio que dividiu o mercado ao meio

Vale lembrar também da Jaguar, montadora britânica de carros de luxo que trocou tudo de uma vez, do símbolo ao tom de comunicação, numa guinada que abandonava quase toda a memória anterior e estreava até um slogan.

O mercado se dividiu de um jeito raro. Uns trataram como suicídio de marca, jogando fora décadas de reconhecimento. Outros defenderam que, para atingir uma clientela diferente, era necessário romper mesmo, e que a reação negativa vinha justamente de quem já não era o comprador pretendido.

As duas leituras são defensáveis, e é por isso que esse exemplo é interessante. Ele mostra que existe uma diferença entre o rebrand que fracassou e o rebrand que incomodou. Nem todo incômodo é erro, e recuar no primeiro dia de barulho pode sair tão caro quanto insistir numa escolha ruim.

O que de fato se perde quando a cara é trocada

Para decidir com alguma frieza, ajuda saber o que está em jogo do ponto de vista prático.

O que se perde tem pouco a ver com a beleza da arte antiga. O que se perde é lembrança acumulada. Cor, forma, tipografia e símbolo funcionam como atalho na cabeça de quem compra: o cliente identifica a marca na prateleira, no feed, no ambiente online ou na rua sem precisar ler o nome. Esse atalho levou anos e muito dinheiro em mídia para se formar, e ele não passa sozinho para a versão nova.

Quando a mudança de logo ou identidade visual é total, a companhia volta a pagar por esse reconhecimento do zero, em geral sem ter reservado verba para isso. É aí que mora o prejuízo silencioso: não no comentário raivoso da internet, que passa, mas nos meses seguintes em que o nome ficou menos identificável e ninguém ligou uma coisa à outra.

A conta que quase ninguém coloca na planilha

Existe um segundo custo, esse bem concreto, que costuma ser subestimado no orçamento. A criação da arte é a etapa barata. O que pesa é substituir tudo o que carrega o desenho antigo.

A lista é sempre maior do que a memória sugere. Fachada e sinalização, frota, uniforme, embalagem e rótulo em estoque, material impresso, cartão de visita, assinatura de e-mail, papelaria, brinde, apresentação comercial, catálogo, perfil em cada rede, anúncio no ar, placa em ponto de venda de terceiros, manual técnico, nota fiscal, contrato. Em operação de porte médio, o levantamento honesto desses itens costuma assustar mais do que o próprio honorário de criação.

E existe o custo que não aparece em nota nenhuma: a campanha necessária para reensinar o consumidor a reconhecer a logomarca. Se o orçamento não previu essa verba, o que acontece na prática é uma troca parcial que se arrasta por anos, com metade dos pontos de contato numa versão e metade na outra. O efeito é pior do que os dois cenários puros, porque tudo fica com aparência de bagunça em vez de aparência de renovação.

Colocar essa conta na mesa antes de aprovar o trabalho tira a discussão do lugar. Muito negócio que ia refazer tudo descobre ali que a situação dele é de evolução, e essa descoberta sai de graça.

Dá para testar antes de anunciar ao mundo

Boa parte dos recuos públicos poderia ter sido evitada por um teste barato feito antes do anúncio. O erro comum é mostrar a proposta só dentro de casa, onde todos estão contaminados pelo processo e vão elogiar.

O teste que interessa é com quem compra. Mostre a versão nova junto com a atual e com duas ou três concorrentes, em condição parecida com a real, e peça para o entrevistado apontar qual é a sua. Se ele hesitar, o atalho de reconhecimento se perdeu, e isso é informação suficiente para repensar.

Outro teste útil é olhar tudo desfocado ou reduzido ao tamanho de um ícone de aplicativo. É assim que o nome aparece na vida real, de relance, no meio de dezenas de outros. Símbolo que só funciona grande e em fundo limpo vai falhar justamente onde precisa acertar.

Vale ainda perguntar diretamente o que a troca comunica. Se a resposta espontânea for que a companhia ficou mais cara, ou que virou outra coisa, ou que parece ter sido comprada por alguém, existe aí um problema de mensagem que nenhum ajuste de tipografia resolve.

Como saber se a sua marca aguenta uma ruptura

Existem perguntas que separam bem o caso em que vale romper do caso em que vale evoluir.

A primeira é sobre o tempo de casa daqueles elementos. Nome com quinze anos e três trocas de cara no meio do caminho não tem reconhecimento acumulado para perder, e pode romper à vontade. Quem tem um símbolo que atravessou gerações está mexendo em patrimônio.

A segunda é sobre quem é o público que reclama. Se a reação prevista vem de quem já não compra, é ruído. Se vem do cliente que sustenta o faturamento, é aviso.

A terceira é sobre o motivo real. Se a resposta honesta for que o time enjoou, ou que o diretor recém-chegado quer marcar território, isso não é razão suficiente para gastar o que foi acumulado. Se a resposta for que o negócio mudou de verdade, que passou a vender outra coisa ou a falar com outra clientela, aí existe um problema de fato, e a mudança de logo ou identidade visual vira consequência, não causa.

O caminho do meio costuma ser o melhor negócio

Entre manter tudo congelado e apagar o passado existe um território que dá menos assunto na internet e mais resultado no caixa: a evolução, que atualiza sem cortar o fio.

Na prática, significa identificar quais elementos carregam o reconhecimento e preservá-los, mesmo que sejam feios pelo padrão atual do mercado, enquanto todo o resto é modernizado. Muitas vezes o ativo é uma cor específica, ou uma forma, ou um personagem, como um mascote, e não o logo inteiro. Guardar o ativo certo e mudar o resto entrega a sensação de renovação sem cobrar de novo pela identificação.

Esse caminho também protege de um erro comum: tratar como sagrado tudo o que é antigo. Nem todo elemento velho é patrimônio, muitos são apenas herança de uma decisão que ninguém revisou. A diferença entre patrimônio e entulho se descobre perguntando a quem compra, e não olhando o manual de marca.

Dá para conduzir isso sem ajuda de fora?

Uma parte sim. Levantar quais elementos o público realmente reconhece, ouvir cliente antigo, mapear onde a identidade visual aparece, do site ao cartão, e quanto custaria trocar tudo são tarefas que a própria empresa consegue tocar, e são o dever de casa que deveria vir antes de qualquer briefing de design gráfico.

A etapa difícil é a decisão seguinte, e ela é difícil por um motivo específico: quem está lá dentro é quem menos consegue julgar o próprio logo. O time convive com aquela arte todo dia, enjoou dela antes do público, e confunde o próprio cansaço com defasagem de mercado. O cliente vê a embalagem por dois segundos na prateleira, em média, e não faz ideia de que ela trocou de fonte.

Por isso rebrand é um dos trabalhos em que o olhar de fora vale mais, e em que a experiência de ter feito isso antes evita prejuízo grande. Alguém que já conduziu o processo sabe perguntar o que a casa não pergunta, sabe reconhecer quando o ativo mais valioso é justamente o elemento que todos lá dentro odeiam, e sabe dizer não quando o redesign é vaidade disfarçada de estratégia. Se a sua empresa está considerando uma mudança de logo ou identidade visual e quer fazer isso sem queimar o que já foi construído, fale com a DTO Publicidade.