Figma Sites: inovação ou exploração?

Como a promessa de criar sites direto do design levanta questionamentos sobre qualidade, código e SEO

Nos últimos anos, ferramentas digitais vêm prometendo algo extremamente sedutor para designers e profissionais de marketing: transformar layouts em sites publicados com poucos cliques, sem depender de desenvolvedores ou de processos técnicos complexos.

A proposta parece revolucionária. Criar, ajustar e publicar tudo dentro do mesmo ambiente de design soa como produtividade máxima. Mas quando analisamos com mais profundidade o que está sendo entregue, surge uma questão importante: estamos diante de uma inovação real ou apenas de uma simplificação que compromete aspectos fundamentais da web?


A promessa da publicação instantânea

A ideia é simples: você desenha uma interface e, sem sair da ferramenta, publica um site funcional. Sem exportações complicadas. Sem integração com plataformas externas. Sem escrever código manualmente.

Para equipes enxutas e profissionais que buscam agilidade, isso parece o cenário ideal. Porém, facilidade excessiva pode esconder limitações estruturais que impactam diretamente desempenho, escalabilidade e resultados orgânicos.


O problema do código gerado automaticamente

Ao analisar o código produzido por soluções que convertem design em site, observa-se um padrão recorrente: estruturas compostas majoritariamente por <div> e <span>, com classes pouco descritivas e ausência de marcação semântica adequada.

Isso gera consequências relevantes:

1. Acessibilidade comprometida

Tecnologias assistivas dependem de uma estrutura semântica clara — como <header>, <nav>, <section>, <article> e <footer> — para interpretar corretamente o conteúdo. Quando essa organização não existe, usuários com deficiência podem ter dificuldades de navegação.

2. Impacto negativo em SEO

Motores de busca analisam a hierarquia e a semântica do código para compreender relevância, contexto e prioridade das informações. Estruturas genéricas dificultam esse entendimento, podendo comprometer o posicionamento orgânico.

3. Manutenção e escalabilidade limitadas

Projetos digitais raramente permanecem estáticos. Eles evoluem. Quando o código é pouco estruturado ou excessivamente automatizado, torna-se mais difícil escalar, integrar novas funcionalidades ou otimizar performance.


Quando a praticidade vira armadilha

A popularização de ferramentas no-code e low-code faz parte de um movimento legítimo de democratização da tecnologia. Permitir que mais pessoas criem produtos digitais é positivo.

O problema surge quando a camada visual é priorizada em detrimento da estrutura técnica. Um site não é apenas aparência — ele precisa performar bem, carregar rápido, ser indexável, acessível e adaptável a diferentes dispositivos.

Sem isso, a “facilidade” pode se transformar em um atalho que gera retrabalho no futuro.


Inovação verdadeira exige profundidade

Inovação não é apenas simplificar processos. É melhorar resultados de forma sustentável.

Para profissionais de marketing, UX e tecnologia, a reflexão é estratégica:

  • A ferramenta acelera o fluxo?
  • Ela mantém padrões de qualidade técnica?
  • Permite otimizações avançadas de SEO?
  • Garante performance consistente?

Se a resposta for parcial, talvez o ganho de agilidade inicial não compense as limitações estruturais.


O que isso significa para designers e profissionais de marketing

Adotar novas tecnologias é essencial. Mas entender suas implicações é ainda mais importante.

Sites não são apenas peças visuais. Eles são ativos estratégicos de marca, canais de geração de leads, plataformas de conteúdo e motores de conversão.

Portanto, antes de substituir fluxos tradicionais por soluções automatizadas, vale considerar se a ferramenta realmente fortalece a estratégia digital — ou apenas facilita a etapa visual.


O impacto na performance e na experiência do usuário

Além da estrutura semântica, outro ponto sensível é a performance. Sites gerados automaticamente costumam carregar bibliotecas e estilos que nem sempre são utilizados integralmente. Isso pode resultar em:

  • Arquivos CSS e JS maiores do que o necessário
  • Tempo de carregamento mais alto
  • Problemas de renderização em dispositivos móveis
  • Dificuldade de otimização técnica avançada

E aqui entra um ponto crucial para marketing digital: velocidade é conversão.

Segundo diversos estudos de mercado, atrasos de poucos segundos no carregamento podem reduzir significativamente a taxa de conversão. Em campanhas pagas, isso significa desperdício de orçamento. Em SEO, significa queda de posicionamento.

Ferramentas que prometem simplificação precisam entregar também eficiência técnica — caso contrário, o custo oculto aparece na performance.


O risco da dependência de plataforma

Outro aspecto pouco discutido é a dependência tecnológica.

Quando um site é gerado e hospedado dentro de um ecossistema fechado, o usuário pode enfrentar limitações como:

  • Dificuldade de exportar o código de forma limpa
  • Impossibilidade de migrar facilmente para outro servidor
  • Restrições de personalização avançada
  • Dependência de atualizações impostas pela própria plataforma

Para pequenas landing pages isso pode não parecer um problema imediato. Mas para projetos de médio e grande porte — especialmente em empresas que utilizam CRM, automação de marketing, testes A/B, integrações via API e rastreamento avançado — essas limitações podem se tornar um gargalo estratégico.

No marketing digital moderno, flexibilidade é um diferencial competitivo.


Design não é desenvolvimento — e isso importa

Existe uma diferença estrutural entre criar um layout e desenvolver um produto digital.

O design organiza visualmente informações.
O desenvolvimento transforma essa organização em uma estrutura técnica robusta.

Quando uma ferramenta tenta fundir as duas etapas em um único fluxo automatizado, inevitavelmente surgem simplificações. E simplificações técnicas podem comprometer:

  • Estrutura de heading (H1, H2, H3) adequada
  • Implementação correta de dados estruturados (Schema Markup)
  • Controle refinado de meta tags
  • Otimização granular de performance
  • Boas práticas de acessibilidade

Para quem trabalha com SEO técnico, isso não é detalhe — é base.


A narrativa da “democratização” precisa ser analisada

Existe um discurso recorrente no mercado: tornar a criação de sites acessível a todos.

E isso é positivo. Mas democratizar não pode significar padronizar excessivamente.

A web é construída sobre padrões abertos. HTML semântico, CSS estruturado, JavaScript modular. Quando soluções automatizadas ignoram esses fundamentos, estamos diante de uma experiência simplificada — mas não necessariamente evoluída.

A pergunta central não é se a ferramenta funciona.
A pergunta é: ela eleva o padrão da web ou apenas acelera a produção de páginas superficiais?


O reflexo para agências e profissionais estratégicos

Para agências de publicidade e marketing, essa discussão é ainda mais relevante.

Se a entrega passa a ser apenas visual e automatizada, o diferencial estratégico precisa ir além da ferramenta utilizada. Caso contrário, o mercado pode começar a enxergar a criação de sites como algo trivial — quando, na verdade, envolve:

  • Estratégia de conversão
  • Arquitetura da informação
  • Copywriting persuasivo
  • SEO técnico e on-page
  • Performance e CRO
  • Integrações com funis de vendas

Ferramentas que reduzem o processo a “arrastar, soltar e publicar” não eliminam essas camadas. Elas apenas as escondem.


Onde essas soluções realmente fazem sentido?

Nem todo cenário exige uma estrutura altamente customizada. Existem contextos onde soluções simplificadas podem funcionar bem:

  • Landing pages temporárias
  • MVPs rápidos para validação
  • Portfólios pessoais simples
  • Projetos internos de baixa complexidade

O problema surge quando a promessa de simplicidade é vendida como substituição total de processos técnicos consolidados.

Em marketing digital, decisões tecnológicas impactam aquisição, retenção e escalabilidade.


O futuro do design integrado ao desenvolvimento

A tendência de integração entre design e código não deve desaparecer. Pelo contrário, tende a evoluir.

Ferramentas realmente inovadoras serão aquelas que:

  • Gerarem código limpo e semanticamente correto
  • Permitirem exportação estruturada
  • Oferecerem controle avançado de SEO
  • Mantiverem compatibilidade com padrões abertos
  • Garantirem performance otimizada

A inovação verdadeira não elimina o conhecimento técnico — ela o potencializa.


Conclusão: simplificação não pode comprometer estrutura

A promessa de transformar design em site com um clique é sedutora. Mas, no universo de publicidade, marketing e tecnologia, decisões precisam ser estratégicas.

Antes de adotar qualquer solução automatizada, é fundamental avaliar:

  • Como o código é estruturado?
  • A performance é competitiva?
  • A acessibilidade está garantida?
  • O SEO técnico é controlável?
  • Existe liberdade de migração?

Ferramentas são meios. Estratégia é o diferencial.

No fim, a questão não é se a solução é inovadora ou exploratória.
A questão é se ela fortalece o ecossistema digital — ou apenas facilita a etapa visual enquanto compromete o que realmente sustenta a web.