A Desmerdificação do Marketing

Por muito tempo, tamanho foi sinônimo de sucesso. Mais funcionários. Mais escritórios. Mais estrutura. Mas essa lógica está desaparecendo. Hoje, clientes não contam cabeças — eles esperam impacto, velocidade e resultados.

O modelo de agência do futuro não será medido pelo número de pessoas, mas pela capacidade de conectar pensamento estratégico, tecnologia e criatividade de forma inteligente. Quem continuar vendendo horas vai perder. Quem gerar impacto vai vencer.

Como chegamos até aqui

O termo “enshittification” foi criado por Cory Doctorow para descrever como plataformas digitais pioram ao longo do tempo: primeiro são ótimas para usuários, depois para empresas, e no final não são boas para ninguém — exceto para as próprias plataformas.

Esse processo levou diretamente à “desmerdificação” do marketing:

  • Fase 1: As plataformas nos atraem
    Facebook, Instagram e LinkedIn prometeram alcance orgânico e conexão com o público. E funcionava. As marcas realmente conseguiam conversar com as pessoas.
  • Fase 2: O algoritmo muda as regras
    O alcance orgânico despenca. De cerca de 10–15% para 1–2%. Seus seguidores já não veem seu conteúdo. A solução das plataformas? Produzir mais ou pagar por anúncios.
  • Fase 3: O marketing entra no modo “roda de hamster”
    Produção em massa de conteúdo — não porque há algo relevante a dizer, mas porque o algoritmo exige. Custos de mídia sobem, qualidade cai.
  • Fase 4: Todo mundo perde
    Usuários ignoram conteúdos genéricos, marcas desperdiçam recursos e profissionais tentam justificar resultados com métricas que não refletem valor real. Isso não é uma crise de marketing — é uma armadilha estrutural.

O problema é comprovado por dados

Relatórios do mercado mostram que criatividade mediana em ambientes ruins de mídia gera perdas bilionárias. Ao mesmo tempo, empresas mais criativas apresentam melhor desempenho financeiro.

Ou seja: volume não funciona. Qualidade funciona.

O que precisa mudar no marketing

• Qualidade como estratégia de alcance

Mais conteúdo não significa mais resultado — significa invisibilidade.

Marcas que apostam em poucas ações realmente boas geram mais impacto do que centenas de posts medianos.

Produza menos. Mas melhor. Mais memorável. Mais compartilhável.

• Linguagem que soa humana

Chega de linguagem corporativa vazia.

Em vez de:
“Temos o prazer de informar…”

Use:
“Criamos isso porque o anterior era ruim.”

Pessoas se conectam com pessoas — não com discursos genéricos.

• Coragem criativa como diferencial

Grandes ideias não nascem de consenso.

Muitas aprovações tornam o trabalho mais seguro — e irrelevante.

Em um cenário saturado, o “seguro” é invisível.

• IA como ferramenta, não como muleta

A inteligência artificial acelera tarefas operacionais, mas não substitui visão, opinião e sensibilidade cultural.

Use IA para ganhar tempo — e invista esse tempo em estratégia e criatividade.

O novo papel das agências

O papel das agências está mudando profundamente: de executoras para parceiras estratégicas.

Agências relevantes fazem isso:

  • Dizem “não” para briefings fracos
  • Vendem ideias, não horas
  • Incentivam o conflito criativo
  • Faturam por impacto, não por volume

Clientes não precisam de mais produção — precisam de direção.

Próximos passos práticos

Para marcas:

  • Defina o que é “bom de verdade”
  • Dê autonomia para pensamento estratégico
  • Reduza camadas de aprovação
  • Pergunte: “eu consumiria isso?”

Para agências:

  • Pare de vender pacotes de conteúdo
  • Apresente menos ideias — porém melhores
  • Defenda qualidade com dados
  • Contrate pessoas que questionam

Para todos:

  • Olhe além da bolha do marketing
  • Teste, experimente e erre rápido
  • Documente aprendizados reais

Por que isso é uma oportunidade

As plataformas quebraram suas promessas:

  • Alcance orgânico praticamente acabou
  • Algoritmos controlam visibilidade
  • Custos de mídia continuam subindo

Mas isso abre espaço para novas regras.

O que passa a ser possível

  • Marcas voltam a ter voz (não só frequência de postagem)
  • Ideias criativas valem mais que volume
  • Times pequenos podem superar grandes orçamentos
  • Branding de longo prazo volta a importar

A realidade do mercado

Nem todo mundo vai mudar.

Muitos continuarão fazendo o mesmo — e se perguntando por que não crescem.

Mas alguns vão entender:

  • Fazer menos
  • Fazer melhor
  • Fazer com mais coragem

E serão esses que vão dominar os próximos anos.

Conclusão

A desmerdificação do marketing não é uma revolução — é uma evolução.

O marketing pode voltar a ser relevante, eficaz e interessante.

Mas isso exige:

  • quebrar padrões antigos
  • abandonar a obsessão por volume
  • e ter coragem para fazer diferente

Quem fizer isso primeiro, lidera.