Unshittification: Como Reverter a Enshittification e Recuperar o Valor das Plataformas Digitais

O que é enshittification
“Enshittification” é um termo criado pelo crítico de tecnologia Cory Doctorow em 2022 para descrever um fenômeno cada vez mais comum: serviços digitais que começam extremamente úteis, mas que, com o tempo, passam por uma degradação progressiva até se tornarem significativamente piores.

Apesar de ser uma palavra considerada rude, sua escolha não é por acaso. O termo se destaca justamente pela clareza com que descreve esse processo — uma deterioração deliberada de plataformas que antes entregavam valor real para seus usuários.

Por que a palavra importa
Com o passar do tempo, muitas plataformas digitais deixaram de ser percebidas como ferramentas eficientes e passaram a ser vistas como ambientes saturados, pouco confiáveis e cheios de distrações.

Interfaces carregadas de anúncios, conteúdos de baixa qualidade e experiências cada vez mais fragmentadas fazem parte dessa mudança. Nesse contexto, “enshittification” se tornou uma forma direta de expressar uma frustração coletiva com a internet atual e com os modelos de negócio que sustentam essas plataformas.

Exemplos do cotidiano
O fenômeno pode ser observado em serviços amplamente utilizados no dia a dia. Redes sociais e ferramentas de busca que antes facilitavam conexões e entregavam conteúdo relevante agora frequentemente priorizam conteúdos sensacionalistas, anúncios invasivos e interesses comerciais.

Na prática, isso significa que a experiência do usuário deixa de ser prioridade. As plataformas passam a focar na extração de valor — seja por meio de publicidade, dados ou monetização indireta — mesmo que isso comprometa a qualidade do serviço.

Mudar de plataforma não resolve
Uma reação comum diante dessa degradação é buscar alternativas. No entanto, o problema não está restrito a uma única empresa ou produto.

A enshittification funciona como uma estratégia de negócios. Primeiro, a plataforma conquista usuários oferecendo valor real. Depois, cria dependência. Por fim, passa a explorar essa base ao máximo, dificultando a saída e reduzindo a qualidade da experiência.

Esse ciclo se repete em diferentes serviços, o que torna a simples migração insuficiente como solução definitiva.

Como funciona o ciclo da enshittification
O processo segue uma lógica relativamente previsível:

• A plataforma começa oferecendo alto valor para atrair usuários
• Em seguida, passa a priorizar interesses comerciais, como anunciantes e parceiros
• Por fim, degrada a experiência de todos os envolvidos para maximizar lucros

Nesse estágio final, tanto usuários quanto parceiros comerciais passam a ter uma experiência pior, enquanto a plataforma continua lucrando com a dependência criada ao longo do tempo.

Por que as empresas sobrevivem
Mesmo com a queda na qualidade, muitas dessas plataformas continuam altamente lucrativas. Isso acontece porque existem barreiras que dificultam a saída dos usuários.

Efeitos de rede, histórico acumulado, conexões sociais e custos de migração fazem com que as pessoas permaneçam, mesmo insatisfeitas. Além disso, empresas e anunciantes também continuam investindo nesses ambientes por falta de alternativas com o mesmo alcance.

Esse cenário permite que serviços mantenham receitas elevadas mesmo entregando uma experiência inferior, com resultados de busca inflados por anúncios, interfaces focadas em monetização e modelos de assinatura pouco proporcionais ao valor entregue.

O papel dos mercados e da regulação
A enshittification não é apenas um problema de design ou tecnologia. Ela está diretamente ligada à forma como os mercados digitais evoluíram.

A ausência de competição real, a baixa interoperabilidade entre plataformas e a limitação de escolhas fortalecem grandes players, que conseguem manter sua base de usuários mesmo com a deterioração do serviço.

Sem mecanismos que incentivem a concorrência e protejam os usuários, o cenário tende a se repetir e se intensificar.

Possíveis caminhos para o futuro
Apesar da complexidade do problema, existem caminhos possíveis para reverter esse ciclo.

Entre as principais propostas estão a ampliação da interoperabilidade entre plataformas, o fortalecimento dos direitos de portabilidade de dados e a criação de regulamentações que incentivem uma competição mais equilibrada.

Além disso, cresce a discussão sobre modelos de negócio que priorizem a experiência do usuário em vez da extração máxima de valor.

A ideia central é reconstruir um ambiente digital em que qualidade, transparência e utilidade voltem a ser prioridades — e onde a degradação intencional deixe de ser uma estratégia viável.